É incontestável que o afeto desempenha um papel essencial no funcionamento da inteligência. Sem afeto não haveria interesse, nem necessidade, nem motivação; e conseqüentemente, perguntas ou problemas nunca seriam colocados e não haveria inteligência. A afetividade é uma condição necessária na constituição da inteligência mas, na minha opinião, não é suficiente.
Podemos considerar de duas maneiras diferentes as relações entre afetividade e inteligência. A verdadeira essência da inteligência é a formação progressiva das estruturas operacionais e pré-operacionais. Na relação entre inteligência e afeto, podemos postular que o afeto faz ou pode causar a formação de estruturas cognitivas. Muitos autores tem apresentado tal tese, por exemplo, Charles Odier em seu estudo das relações entre psicanálise e meus estudos em psicologia infantil. Odier sustentou que o esquema do objeto permanente - as descobertas que o bebe faz sobre a permanência do objeto quando ele desaparece do seu campo visual - é causado por sentimento, por relações objetais. Ou seja, isto é devido às relações afetivas da criança com o objeto ou pessoa envolvida. Em outras palavras, as relações afetivas da criança com o objeto-mãe, ou outras pessoas, são responsáveis pela formação da estrutura cognitiva.
O psicólogo francês Wallon acha que a emoção é a fonte do conhecimento. Um estudioso de Wallon, Malrieux, chega até a dizer que a estimativa de distância, ou a percepção de distância, é devida ao desejo de alcançar objetos distantes, e não à própria distância dos objetos.
Uma segunda interpretação é que o afeto explica a aceleração ou retardamento da formação das estruturas; aceleração no caso de interesse e necessidade, retardamento quando a situação afetiva é obstáculo para o desenvolvimento intelectual, como no excelente estudo de Spitz sobre hospitalismo. Nessa interpretação, a afetividade explica a aceleração ou retardamento mas não a causa da formação da estrutura. Embora uma condição necessária, a afetividade não é condição suficiente na formação da estrutura, que na cognição, é autônoma. Por exemplo, numa estrutura aritmética como 7+5=12, a compreensão da igualdade pode ser retardada por certas situações afetivas, ou pode ser acelerada onde o interesse estiver envolvido. Em ambos os casos, o sujeito acabará por aceitar que 7+5=12. Isto mostra a estrutura independente do afeto, mesmo que sua construção possa ser motivada, e por conseqüência acelerada ou retardada por sentimentos, interesse e afeto.
O afeto pode levar a erros, e por causa de certos problemas afetivos, uma criança pode aceitar por um momento que 7+5=11, ou 13 e não 12. Mas isto não é uma estrutura equilibrada. Mesmo que o afeto leve a desvios momentâneos, fatores puramente cognitivos corrigirão eventualmente cada estrutura, independentemente do afeto.
Das duas interpretações, eu escolho a segunda e tentarei demonstrar geneticamente que a afetividade pode levar a aceleraçãoou retardamento, mas não é a causa da formação das estruturas cognitivas. Considerando primeiroque a afetividade precede as funções das estruturas cognitivas, mostrarei que os estágios da afetividades correspondem exatamente aos estágios de desenvolvimento das estruturas; ou seja, que há correspondência e não sucessão.
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Magda Medeiros Schu foi quem traduziu o texto acima.
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